Luiz Maurício Bentim
Maria Elizabeth Bueno
Cesar de Alencar
Ricardo Spagnuolo
Anaximandro foi um filósofo que viveu na Jônia do século VI a.C. Diz-se que foi geógrafo, matemático, astrônomo, político e filósofo. Mas duas coisas nos interessam aqui: a primeira é que ele foi discípulo de Tales, aquele que é considerado o primeiro filósofo da história; e a segunda é que pertence a Anaximandro o fragmento que é considerado o princípio de todos os outros na história da filosofia. É deste fragmento que queremos aqui falar e, por isso, reproduzimos abaixo:
Ἀναξίμανδρος … ἀρχήν … εἴρηκε τῶν ὄντων τὸ ἄπειρον … ἐξ ὧν δὲ ἡ γένεσίς ἐστι τοῖς οὖσι, καὶ τὴν φθορὰν εἰς ταῦτα γίγνεσθαι κατὰ τὸ χρεών⸱ διδόναι γὰρ αὐτὰ δίκην καὶ τίσιν ἀλλήλοις τῆς ἀδικίας κατὰ τὴν χρόνου τάξιν.
Anaximandro … disse … que o princípio do ser é o infinito … de onde, em fato, os seres têm origem, há também corrupção segundo a necessidade: de fato, pagam um ao outro a pena e o resgate pela injustiça segundo a ordem do tempo1.
Em seu fragmento, Anaximandro já nos deixava um legado ousado: a ideia de que o princípio do ser, isto é, de tudo que há, é o ἄπειρον (ápeiron), que podemos traduzir por ilimitado ou indeterminado. Dessa forma, Anaximandro rompeu com as explicações mitológicas de sua época, que atribuíam a origem do mundo a deuses. No entanto, é importante ressaltar que o que chamamos de ruptura não extrapola a ordem da phýsis, isto é, da natureza enquanto ordem harmônica que rege tudo que há. A explicação mítica com a qual a explicação racional filosófica rompe também se encontra na ordem da phýsis, pois os próprios deuses gregos fazem parte da phýsis, nunca estando para além desta, em uma ordem sobrenatural.
Diferentemente de seu mestre Thales, que considerava a água como a substância primordial, Anaximandro sugeriu algo mais abstrato e inovador: uma realidade ilimitada, sem forma definida, que transcende qualquer elemento específico como água, ar, fogo ou terra. O ápeiron não é algo que podemos tocar ou ver, mas é a fonte original de onde tudo emerge e para onde tudo retorna. Essa ideia marca um passo crucial no pensamento filosófico, pois introduz a noção de um princípio universal.
Sobre a menção do filósofo à “necessidade” (khreón) e à “ordem do tempo”, podemos perceber que o processo de criação e destruição das coisas não acontece de forma arbitrária, mas segue uma espécie de lei cósmica, um equilíbrio natural harmônico que governa o universo. Quando os seres surgem do ápeiron, eles inevitavelmente retornarão à sua origem por meio da corrupção. O ápeiron aparece como a unidade primordial da qual a multiplicidade surge e passa a fazer parte da ordem do tempo (khrónos) e também da corrupção (phthorá), ou seja, da mudança própria do mundo. Essa visão cíclica da existência sugere que nada é permanente e que tudo está em constante transformação, uma ideia que ecoa em muitas filosofias posteriores, tanto no Ocidente quanto no Oriente. E pode ser a origem do “eterno retorno” nietzschiano.
Além disso, Anaximandro introduz no fragmento os conceitos de “justiça” (δίκη, díke) e “injustiça” (ἀδικία, adikía) para explicar as interações entre os elementos do cosmos. Embora Anaximandro estivesse falando de processos naturais, sua filosofia nos convida a refletir sobre a impermanência e a interdependência de todas as coisas. Assim como os elementos do cosmos, nossas ações e escolhas também estão inseridas em um sistema maior de causas e consequências, onde o excesso ou a desarmonia eventualmente exigem um ajuste. É uma ideia que, embora antiga, ressoa profundamente com conceitos modernos de equilíbrio ecológico.
O conceito de Anaximandro sobre o ápeiron nos remete a outra teoria contemporânea: a teoria do Big Bang. Comparando as duas hipóteses, podemos fazer alguns paralelos conceituais fascinantes, ainda que os contextos históricos e metodológicos sejam completamente distintos. O ápeiron de Anaximandro, como o princípio ilimitado e indeterminado de todas as coisas; o Big Bang explica como o universo evoluiu a partir de um estado denso e quente há cerca de 13,8 bilhões de anos. Ambos representam um estado fundamental a partir do qual tudo que existe como podemos observar contemporaneamente veio a ser.
Outro ponto de convergência está na ideia de um princípio que transcende as categorias familiares. O ápeiron não é um elemento específico como água ou fogo, mas algo além da compreensão direta, indefinido e ilimitado. Da mesma forma, a singularidade do Big Bang desafia nossa compreensão habitual de espaço e tempo, pois as leis da física, como as conhecemos, não se aplicam no instante da singularidade. Ambos os conceitos – o ápeiron e a singularidade – apontam para algo que está além dos limites do que podemos observar ou descrever com precisão, exigindo inovações conceituais e teóricas para descrevê-los.
Disposta, portanto, desde uma posição, por assim dizer, metafísica (termo que em filosofia passa a designar o conjunto das especulações acerca da realidade em sua totalidade), a sentença de Anaximandro provoca o pensamento cosmológico a assumir como necessária a consideração da origem do mundo físico a partir de uma realidade além da sensório-material, unicamente possível de ser apreendida pelo intelecto, através do lógos. Por esse motivo, a prosa desenvolvida pelo discípulo de Thales, quase perdida de todo, deixa ver, ao menos por esse fragmento, alguns elementos depois aprofundados pelo pensamento dialético de Heráclito e de Parmênides, tais como a natureza opositiva da reflexão conceitual, que aparece sobretudo pelos pares de opostos geração-corrupção e justiça-injustiça, além do uso de símbolos da cultura como meio de reflexão científica, como aqui o jargão jurídico (pena e reparação) aparece com finalidade metafísica.
Heráclito e o fogo sempiterno:
Em Éfeso, não muito distante da Mileto de Thales e Anaximandro, Heráclito (540-470 AC) viveu uma vida reclusa e dedicou suas reflexões àquilo que podemos chamar de um contraponto ao modelo teórico de seus antecessores. Referido como obscuro, mesmo entre os antigos, Heráclito depositou seus escritos no templo da deusa a quem os dedicou: Ártemis, irmã de Apolo, ela também uma deusa associada aos mistérios. Dessas sentenças conhecidas por seu teor evocativo, quase oracular e de difícil interpretação, nos chegaram mais de cem fragmentos, cujo princípio norteador é sua reflexão sobre o lógos, essa razão ou inteligência comum aos humanos, através da qual a apreensão do universal se torna possível (DK 22 B 41 e 114).
A filosofia de Heráclito é aquela da mudança, a de um fluxo universal onde nada permanece estático. Assim, ele propõe a ideia do mundo como um processo em constante movimento, não obstante seja ordenado por uma lei universal, uma razão suprema, o Lógos. Neste sentido, para Heráclito a ideia deste fluxo constante regulado pelo lógos em permanente mudança é simbolizada pelo fogo. Contudo, aqui não se trata de nossa simples percepção sobre o elemento fogo – o que arde, queima, cozinha e assa os alimentos – mas de um princípio mais abstrato, associado ao seu aspecto metafísico e transformador.
Para o filósofo de Éfeso, o próprio kosmos é este fogo sempiterno, sempre vivo, primordial, “aceso em medidas, e em medidas apagado” (DK 22 B 30), processo em que a medida do ganho e a da perda do calor determinam o estatuto de eternitas às mudanças dos demais elementos: água, terra e ar. Assim, em um movimento de progressiva extinção (perda de calor), o fogo torna-se ar, o ar torna-se água, e a água torna-se terra – pois, mesmo a terra guarda em alguma medida o calor proveniente do fogo. Movimento que em sua ascendência percorre o caminho oposto: da terra à água, da água ao ar, e de volta ao fogo primordial, aquele “relâmpago que gera todas as coisas vivas” (DK 22 B 64).
Portanto, o princípio da eterna mudança na natureza primordial representada pelo fogo define, da mesma maneira, o eterno fluxo dos opostos no ciclo da vida-morte-vida, no qual repousa a estabilidade cósmica por excelência na filosofia de Heráclito. Uma harmonia de opostos entre luz e sombra, saúde e doença, verso e reverso, que exerceu grande influência entre os poetas, logógrafos e filósofos da antiguidade. Sobre a ideia deste fogo sempiterno, o mito prometeico do fogo narra como este dom divino passado à humanidade pelo titã Prometeu, representado nas muitas técnicas desenvolvidas para a sobrevivência e evolução dos homens, estabelece uma miríade de outros conhecimentos, outros logoi, dessas mesmas técnicas primordiais, evoluindo – para além da mera semântica – nas muitas tecnologias dos humanos ao longo do tempo e da história.
- Fragmento 1 de Anaximandro. Para o texto grego, seguimos a edição de DIELS, Hermann; KRANZ, Walther. I Presocratici. A cura de Giovanni Reale. Milano: Edizione Bompiani, 2006. A tradução do fragmento é nossa apoiada na tradução de Giovanni Reale. ↩︎
