O ponto de partida: No dia 26 de agosto de 2026, uma avalanche de lama, rochas, gelo e água na fronteira entre o Nepal e o Tibete varreu vilas, portos e infraestruturas, deixando mais de 350 mortos e centenas de desaparecidos. Entre os escombros, uma cena: um menino tentava se salvar de um amontoado de lama e detritos, enquanto a poucos metros vários homens adultos gravavam a cena. Nenhum deles estendeu a mão. Nenhum deles largou o celular para puxá-lo.
A expressão “Respeitável público!”, consagrada pelos mestres de cerimônia do circo para anunciar o início do espetáculo, ganha um outro tom nos dias atuais. Hoje, o anfiteatro não possui arquibancadas e nem palhaços; ele se desdobrou em telas de alta definição, prontas para consumir a aniquilação do outro.
Uma análise dessa cena não nos pode fazer ignorar o recorte de gênero, pois o fato da maioria dos espectadores omissos ser composta por homens adultos apresenta, mais uma vez, os sintomas de uma sociedade patriarcal adoecida. Historicamente, a masculinidade hegemônica foi construída sobre os pilares de uma suposta racionalidade superior, do distanciamento emocional e do desejo de controle e domínio sobre o ambiente e aqueles que nele vivem; com a hiperconexão, esse impulso de domínio se desprende da ação concreta e se refugia na lente da câmera.
O celular transforma-se em um escudo ontológico: ao posicionar a tela entre si e a vítima, o indivíduo se desobriga a cuidar da vulnerabilidade do outro ou mesmo a mostrar afeto. Ele se coloca na posição de um observador soberano e intocável, que analisa o caos sem se deixar contaminar pela dor alheia. Há, assim, uma recusa deliberada em agir pela ética do cuidado, historicamente desvalorizada pelo patriarcado por ser associada ao universo feminino ou à fraqueza.
Assistimos, atordoados, à manifestação extrema de uma virilidade esvaziada de empatia, onde a masculinidade se afirma não pela força de proteção ou pelo amparo comunitário, mas pelo poder de enquadrar, fetichizar e sentir prazer pela tragédia humana. O anestesiamento da própria consciência em sua forma mais sórdida, porém tolerada (para não dizer acobertada) por seus semelhantes.
As consequências dessa dinâmica para o tecido social não poderiam ser mais devastadoras. Os laços de proteção são substituídos pelo individualismo, a dor alheia é encarada como algo a ser consumido e apreciado e há um sufocamento gradativo dos fundamentos mínimos da convivência e compaixão.
Para nós, o que resta? Um bom início seria desconstruir as lógicas patriarcais que associam o cuidado à fraqueza e a omissão ao controle. Também precisamos nos educar para a sensibilidade moral, para a capacidade de nos indignarmos e, fundamentalmente, para a ação concreta, saindo do pedestal em que nos colocamos e olhando para a existência do outro com respeito. Nada é mais urgente do que abandonarmos a ilusão de sermos deuses cruéis que, do alto de seus privilégios, dispõem da dor alheia como mero espetáculo, sem qualquer remorso ou peso na consciência.
A vida real nos lembra que não existe neutralidade: somos eticamente responsáveis não apenas pelas ações que praticamos, mas também pela covardia do que nos omitimos a fazer. Diante da barbárie, o único gesto revolucionário é abaixar a câmera, romper a apatia e estender a mão.
