O feminino entrelaço em poéticos fios, on canvas…

Daughter of the seasonal tea room, Yasunari Ikenaga

Daughter of the seasonal tea room, Yasunari Ikenaga

O feminino entrelaço em poéticos fios, on canvas1

Maria Elizabeth Bueno (FFLCH-USP)

A pintura que acompanha essa escrita ilustra algo para além da obra de Yasunari Ikenaga e de sua Bijinga (icônica arte em linho), que retrata a beleza e a sedução feminina. Ela nos remete às sutilezas da sensualidade na arte japonesa, embora em traços mais ousados se considerarmos os costumes desta cultura – sua primeira exposição solo data de 2005, em Kyoto. Desde então, as inovações do artista incluem a inserção de lágrimas nos traços das bijingas – como as da exposição da Galeria Shukado, em 2021 – e os nus femininos, apresentados no circuito artístico de 2022. O salto temporal no presente texto convida, então, às digressões de outros retratos femininos, entre poéticos e etnográficos.

A poética de Kenkō, traduzida como Essays in iddleness Ensaios do ócio, em tradução literal –, e aparentemente desconhecida pelo público de seu tempo, apresenta as reflexões de Yoshida no Kaneyoshi (Kenkō), um monge e poeta do templo budista de Kyoto. Segundo Donald Keene – estudioso da obra – a coletânea de ensaios foi escrita entre os anos de 1330 e 1332, como fruto de um “ócio associado ao tinteiro”.

Das curtas passagens – algumas não chegam a compor duas páginas na edição em parceria com a Columbia University Press (1981) – Keene destaca o propósito geral da narrativa: “ao revelar-se como autorretrato do autor, a escrita denota o elogio à tradição e ao passado, o horror ao efêmero, às vaidades humanas e à morte, norteando toda sua ética pelos valores da modéstia e da simplicidade” (Essays, 1981, p.ix).

Considerada como uma obra de valor central para a evolução do gosto na cultura japonesa, a poética de Kenkō revela sua potência na peculiaridade da estética oriental, sempre voltada aos paradoxais imperativos da beleza em sua efemeridade. Tudo o que é belo está fadado ao instante seguinte. Ou seja, ao seu próprio padecimento.

Das coisas do Oriente tive o privilégio da experiência, aos vinte anos. A edição dos ditos poemas, por exemplo, ganhei de uma sensei na temporada de estudos e trabalho em Tóquio, e confesso que a leitura, à época, em nada me seduziu… Dos costumes, dos hábitos e do peso da tradição da cultura japonesa, tudo era experimentado em compulsória imersão, nem sempre agradável aos inconformismos da juventude. O incômodo com o enfrentamento das diferenças se sobrepunha, nublando a riqueza das trocas e do aprendizado do outro. A língua, a observância dos modos, a marcante submissão do feminino, a misoginia estética imposta às jovens estrangeiras – estranged na plena acepção do termo -, os pequenos e desajeitados trejeitos que nos corrigiam, despiam, arrancavam e apontavam como inaceitáveis… Enfim!

Recordo-me de ter suspendido a leitura à página 9, no nono capítulo da coletânea. Tudo ali me parecia insuportável. O esmagamento que experimentávamos na rotina diária entre trens, trabalho, demandas e o peso do exílio identitário se refletia no isolamento de gênero, pois ser mulher, falar mulher e estar mulher significava também o não-ser, o não-falar e o não-existir. Entre infinitos domo sumimasen (mil perdões), shitsurei itashimasu! (com vossa licença), e infalíveis mesuras sobrepostas às perguntas – jamais respondidas – uma nota se destacava, dissonante: os cabelos.

A estética feminina para gaijins não comportava cabelos livres ou naturais. Eles deveriam ser contidos em duas categorias marciais: curtos, à la garçonne, ou absolutamente presos, emplastrados em impecáveis coques, sem resquícios de desleixados fios ou vestígios de perigosos cachos ao estilo, ‘pega rapaz’. No Japão dos anos 1990 o feminino permanecia ameaçador e ofensivo, tal e qual no poema de Kenkō:

Belos cabelos estão, entre todas as coisas em uma mulher, no que mais chama a atenção de um homem. O seu caráter e temperamento podem ser previstos nas primeiras palavras que ela profere, mesmo que esteja oculta por detrás de um biombo. Quando uma mulher – talvez intencionalmente – conquista o coração de um homem, ela raramente dorme em paz. Não hesitará em submeter-se aos maiores sacrifícios, e suportará com bom humor o que normalmente não toleraria…Tudo em nome do amor. O amor entre homens e mulheres é, com efeito, uma paixão com raízes profundas. Os sentidos dão vazão a muitos desejos, embora seja possível dispersá-los. Somente a paixonite é impossível de ser contida; seja antiga ou jovem, sábia ou tola, todas se assemelham. Por isso há quem diga que mesmo um grande elefante pode ser facilmente amarrado com uma corda trançada com fios de cabelo de uma mulher, e que o som de uma flauta feita de suas sandálias seja capaz de invocar o Gamo outonal. Devemos nos resguardar dessa ilusão dos sentidos, sendo melhor desprezá-la e evitá-la (Essays, IX).

Minhas releituras da obra e da passagem em questão ressoaram diferentes indagações a partir de outras vivências orientais, entre tons de alteridade e reconhecimento, nas belezas da Tailândia e nos reencontros afetivos em Bali. Diferentes paisagens; análogos femininos. A força das tradições locais reiterava as suposições sobre a potência das mulheres naqueles misóginos e feudais fios narrativos, de fúria inconteste, capaz de dobrar elefantes, em que se revelasse a sutileza dos perigos apontados na poética. Entre a delicadeza dos sentidos e das formas, pairava o ardil das tramas; do oculto ora percebido, ora disfarçado; do tênue desarme da força, do enfraquecimento do senso, evocando metáforas e manipulando estações.

Décadas mais tarde, de volta ao ocidente geográfico, percebi que a tradição apenas trocava a textura do véu, e as gloriosas femininas liberdades, libertinas e liberadas seguiam lutando, clamando por espaço, voz, territórios de reconquista e protagonismo sobre nossos corpos. “Sem açúcar, nem afeto”, ousavam audaciosas e aos berros: “meu corpo, minhas regras!”. Deixei de olhar para aquele Japão, agora guardado em uma caixinha de afetos e lembranças, e voltada às ancestralidades do ocidente, derramei os cachos por inteiro sobre Homero e Hesíodo, perscrutando análogas ressonâncias de um feminino em letras gregas.

Das releituras da Teogonia sigo pistas das insondáveis artimanhas de uma misoginia escudada que o poema declara, nada retilíneo, a ocultar seu reconhecimento das sinuosas veredas do feminino. Destaco para breve nota algumas poucas passagens da cosmogonia, em nada aleatórias, lembrando o alerta de Jaa Torrano: em Hesíodo, “o mundo é um conjunto não-enumerável de teofanias, séries sucessivas e simultâneas de presenças divinas” (2003, p.51), onde cada uma delas marca “um polo de forças e atributos”, estabelecendo no tempo e no espaço o instante de cada imanência.

Assim, da preeminência de Gaia na ordem das linhagens e gerações divinas, temos de sua progênie com o Céu, Oceano e Tétis. Ele, o rio divino “de fundos redemoinhos” (Teog. v.133), aquele que circunda a Terra por inteiro, correndo ao contrário. Ela, “Tétis amorosa”, que dele “gerou rios rodopiantes” (v. 337), dentre os quais, o divino Escamandro banhando Troia, e a sagrada geração de filhas: “que pela terra adolescem homens com Apolo rei e com os Rios, e que têm de Zeus esta honra” (v. 347-348). Oceaninas de finos tornozelos e de amável talhe, belas por inteiro.

Entre as primeiras: Persuasiva, que faz do discurso o deleite; Astúcia, ardilosa gota que tudo sabe, tudo vê; Dóris amantíssima, mãe de nereidas; doce Eurínome, guardiã de sutis técnicas; benfazeja Týche (ou Acaso) fluída e caprichosa, ora cheia, ora vazante, como as marés que alternam a sorte humana; e, em opostas fronteiras, a bela Calipso, senhora de Ogígia, e a imperecível Estige, honrada guardiã dos divinos juramentos, de águas detestáveis aos mortais (v.349-366). Todas elas facetas deste feminino primordial, percorrendo a terra em fontes e águas profundas.

Das mulheres mortais, Hesíodo as denomina descendentes de um “belo mal” – referindo-se à gênese de Pandora, presente divino que compensa a traição de Prometeu contra Zeus (enredo narrado em outro poema, Os Trabalhos e os Dias). De sua menção na Teogonia sabe-se que: “dela é a funesta geração e grei das mulheres, grande pena que habita entre homens mortais, parceiras não da penúria cruel, porém do luxo.” (v.590-593) Contudo, ao findar o poema nos trechos que enaltecem a geração do Olimpo, relembra seus divinos conluios com homens e mulheres mortais, deixando a encargo das Musas aqueles que cantariam precisamente “a grei de mulheres”, mães das divinas proles (v.1021).

O paradoxo de Hesíodo situa a potência de existência do feminino na ordenação do poema, entre atração e repulsa, apontando-o em sua natureza perecível como mácula e desgraça para a humanidade, não obstante faça dele o seio amoroso para desejosos encontros e simulacro das novas (heroicas) linhagens. O que se desvela no belo, imanência mesma das teofanias e da epifania humana de toda a potência feminina – das Oceaninas, por exemplo -, reflete-se no mal que transborda por inteiro na figura da mulher, criatura impossível de ser compreendida, quiçá contida. O feminino divino se manifesta na fêmea mortal e mortífera, portanto, na mesma lógica de atração e repúdio, desejo e temor, vida e morte.

Deslocados dos detestáveis fios, assim narrados pelo monge do ócio, para enfeitar a fronte de sedutoras bijingas em galerias mundanas, entrelaçam amarrações em irresistíveis tramas.

Os cabelos… Ah, os cabelos!

[Este breve escrito é dedicado às Siren_eas, femininas presenças nos grupos de pesquisa Ápeiron e Prometeu, que entre cantos, entrelaçados coros de dissonantes vozes, em cores e tons, cardam fios nas pontinhas dos dedos, entre cachos e finos textos, de olhares astutos, silêncios que sussurram e risos por inteiro. On canvas e em cortejo…Roberta, Giselle, Danieli e Renata].

  1. Texto publicado no blog por Roberta Ribeiro, mas de autoria de Maria Elizabeth Bueno ↩︎