E Gaia ainda pulsa…

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Texto de Maria Elizabeth Bueno; ilustração de Roberta Ribeiro.

O sopro da vida se mede pelo ritmo do pulso, esse tamborilar sísmico que nos escapa à atenção, sempre voltada aos ruídos estridentes da vida humana. Todavia, basta que ele desacelere ou rompa a velocidade aceitável à boa circulação dos rios internos de nosso corpo, para darmos conta de sua vital cadência, entre altos e baixos, desarmonias e silenciamentos.

Em recente artigo publicado na revista científica Popular Mechanics[i], Caroline Delbert lembrou que nosso planeta pulsa a cada 26 segundos, e o mais curioso disso é que desde a descoberta do singelo microssismo – por volta dos anos 1960 – ainda não há uma explicação científica que o determine. Uma reação da crosta à energia solar? Um fenômeno cósmico? A frequência cardíaca de Gaia? Conjecturas pululam.

De acordo com o geólogo Jack Oliver, que registrou o pulso no Observatório Geológico Lamont – Doherty (Universidade de Columbia), à época não se dispunha da tecnologia suficiente para estudos mais aprofundados sobre o fenômeno. Contudo, mesmo com as técnicas atuais, os cientistas seguem tentando solucionar o mistério. Alguns avanços neste sentido determinaram, por exemplo, a localização do ritmo: a Baía de Bonny, parte do Golfo da Guiné,  de cujas teorias apresenta-se uma linha mais prosaica de argumentos, como o da geofísica das placas no Atlântico – em que a parte mais alta da massa continental norte americana despenca numa planície oceânica abissal onde as ondulações causariam o tambor rítmico ao atingir a baía -, ou mesmo aquele que aposta na proximidade da região das atividades sísmicas do vulcão da ilha de São Tomé como explicação natural.

Confesso que ao me deparar com o artigo, não pude deixar de ler nas entrelinhas do texto duas evidências interessantes: a primeira, que atesta o esvaziamento nos recursos científicos de todo e qualquer vocabulário que admita tal microssismo como algo natural, no sentido didático por excelência do rerum natura, de uma lógica filosófica naturalista, como o rítmico pulsar de um organismo vivo – seres vivos pulsam; o planeta pulsa. E uma segunda evidência que passa pela falta de conhecimento generalizada das narrativas antigas, as quais tratam em suas cosmogonias e cosmologias acerca dos fenômenos naturais associados às narrativas poéticas, recorrentes na base da educação humana daquele tempo para sua (com)vivência no planeta. E isso nos leva de volta aos mitos.

Um desses registros antigos é a Teogonia do poeta Hesíodo (VII AEC)[ii]. Em seu estudo e tradução do poema, JAA Torrano lembra que a novidade de tudo que ele possa ter declarado sobre a obra está justamente na força da repetição daquela sabedoria. E desta sapiência poética temos: a noção mítica da linguagem como manifesto divino; a verdade (alethéia) revelada na epifania do poeta com as Musas; a noção mítica do tempo dessa imanência divina; e a noção mítica do mundo como conjunto, uno e múltiplo, de manifestações, atos e potências em plena logosofia de genealogias, linhagens e intercâmbios. (JAA Torrano, 2003)

Assim, no pensamento arcaico e simbólico do poema de Hesíodo, a origem da totalidade de tudo que é revela-se na tetrarquia – de uma arché quádrupla – que nos permite o vislumbre das divindades primordiais: Caos, Terra, Tártaro e Eros.

Sim, bem primeiro nasceu Caos, depois também,

Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,

dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,

e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,

e Eros: o mais belo entre os deuses imortais

solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos

ele doma no peito o espírito e a prudente vontade. (Teog., 116-122)

E como “sede irresvalável” de tudo que há, Γαȋ (Gaia, ) “deu origem ao Céu constelado, para cerca-la toda ao redor” (Teog., 127), às altas Montanhas, “abrigos das Deusas ninfas” (Teog., 129-130), e a “infecunda planície impetuosa de ondas, o Mar” (Teog., 131-132). E do pulsante ritmo dela toda irradiam-se outros pulsos que para ela retornam, sejam nas profundezas vulcânicas de montanhas ancestrais, sejam as do chão marinho, nunca homogêneo, de fossas e cânions, morada de monstros, Oceânides e titãs, ou mesmo das espécies que a habitam, pulsando em ritmos próprios.

E assim, do estrondoso encontro das correntes atlânticas no cânion da Nazaré, em Portugal, abalam-se ondas furiosas em vagas e ritmos que os argonautas surfistas enfrentam em torneios e hecatombes, a cada inverno. Pequeníssimos pulsos pulsantes em adrenalina alucinante nas paredes de 78, 90 pés. Festim sísmico de pulsos interespécies, filhos da Terra todos eles, que se repetem nos coliseus modernos de Jaws, no Havaí, e de Mavericks, na Califórnia, para citar alguns poucos.

Contudo, como nota Delbert, em tempos de humanas exasperações com outros mapeamentos sísmicos, estudos de altíssima prioridade diante da aceleração das atividades vulcânicas, dos mapeamentos de fenômenos climáticos cada vez mais severos no Atlântico e outros graves ‘distúrbios na força’ – também conhecidos como tufões, furacões, ciclones, tornados, enchentes, derretimento de capotas polares, incêndios devastadores, extinção de espécies -, enfim, colheitas tão humanas nessa natural caótica (des)ordem dos tempos, o mistério do gaiato microssismo fica para mais um ‘talvez, quem sabe, um dia’.

E para este talvez se joga também a nossa reconexão com aquilo que está diante de nós, em sua retumbante singeleza: em tempos de pandemia (sobretudo nos lockdowns de 2020), sismólogos notaram que a Terra parecia menos pulsante, menos inflamada, em preguiçosos e espaçados espasmos de uma calmaria, quase meditativa. Alguém arrisca um palpite?

Fato é que, como cantam os Uranidas do rock nacional, “o pulso ainda pulsa… e o corpo ainda é pouco”.[iii] Muito pouco, arrisco dizer.


[i] DELBERT, Caroline. “Earth pulsates Every 26 seconds. No one knows why.” Popular Mechanics. Science. Our planet. Published: Aug 27, 2025 10:33 am EDT. (https://www.popularmechanics.com/science/environment ; acesso em 28 de agosto de 2025).

[ii] HESÍODO. Teogonia. A Origem dos Deuses. Estudo e tradução JAA Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2003. (A obra vem citada no presente texto na forma abreviada, seguida dos versos em arábico referentes às passagens).

[iii] “O pulso” é uma canção da banda Titãs, de 1989. A composição é de Antonio Bellotto, Marcelo Fromer e Arnaldo Filho. Titãs eram, também, os filhos de Urano e Gaia; por isso, chamados de Uranidas.