Frankenstein ou O Prometeu Moderno
Luiz Maurício Bentim
Aproveitando a mais nova interpretação cinematográfica de Frankenstein feita por Guilhermo del Toro e que pode ser vista na Netflix, vamos escrever algumas linhas sobre a obra.
Se pensarmos que Prometeu trata de um legado deixado aos homens, um legado de fogo e artes, teremos o início de uma resposta, pois será essa mesma atitude prometeica do homem pelo avanço da ciência e das artes, que levará à gênese do Prometeu Moderno e, também, a sua condenação. E quando falamos de um Prometeu Moderno, não podemos esquecer da obra de Mary Shelley, “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”, escrita há mais de duzentos anos atrás. Qual o intuito dela ao relacionar sua obra com o mito de Prometeu?
Ao contrário da obra de seu marido, Percy Shelley, que nos apresenta um Prometeu resistente pelo seu amor à humanidade, o Prometeu de Mary Shelley apresenta a decadência humana, o rompimento do homem com Deus e a reminiscência do Paraíso Perdido. Se levarmos em consideração a criatura que ganhou vida, podemos ver nela a dor, o exílio e a condenação presentes no mito. No entanto, a nosso ver, não é a criatura que recebe a alcunha de Prometeu Moderno, mas o criador. É o criador que se chama Frankenstein, apesar de erroneamente associarmos o seu nome à criatura. Através do estudo da filosofia natural, o criador se utiliza da máxima arte para (novamente) roubar o fogo grandioso e dar vida a algo que ele construiu. Frankenstein roubou algo que pertencia somente a esfera divina, ele infringiu uma regra da natureza que dizia que os seres vivos só seriam gerados através da procriação ou através da interferência divina. Ele caracterizou a ruptura dessa regra e deu vida a uma criatura construída por ele apenas. Ao fazer isso, ele rompeu irreversivelmente com Deus e se tornou ele mesmo um deus na sua atitude criadora e vital. Frankenstein na sua ousadia divina acabou por condenar a si mesmo aos seus próprios grilhões:
“Por um momento, minha alma elevou-se acima de seus temores degradantes e miseráveis para contemplar as ideias divinas de liberdade e sacrifício de que aqueles lugares eram os monumentos e recordações. Por um instante, ousei romper meus grilhões e olhar ao redor com um espírito livre e elevado, mas o ferro corroera-me a pele, e eu afundei novamente, trêmulo e desesperado no meu miserável eu”.
(SHELLEY, M. Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, p. 167-8.)
Descartes em suas “Meditações Metafísicas” irá nos dizer que para todo efeito deve haver uma causa de poder igual ou maior ao efeito. Isso é uma das justificativas para haver um Deus como criador (causa) da criatura humana (efeito). No “Frankenstein”, Mary Shelley demonstra quesem Deus para se agarrar, o próprio homem se torna deus e, com isso, prisioneiro de si mesmo e do seu próprio pensar. O Prometeu Moderno é a solitude do cogito, é o efeito sem causa, é a condenação do homem à sua irreversível ação. A criatura da obra não é um ser invocado por magia, não é um construto sobrenatural, não é fruto imagético de uma mente desordenada, mas ela foi criada por ação da ciência humana. O criador e a criatura se fundem como peça única do método científico. O homem moderno é aquele que deseja o controle da natureza através do uso da ciência em princípio e fim, eliminando todo o fabuloso, toda a magia e toda a superstição da sua vida. Eis a sina do Prometeu Moderno.
A obra de del Toro dialoga com essa faceta da ciência moderna, muito bem retratada na ambição de Victor. Apesar de ter belíssima imagem, o filme deixa a desejar no roteiro, principalmente no final redentor que nos foi apresentado. Para alguém que fez o espetacular “O Labirinto do Fauno”, confesso que esperava bem mais de sua versão de “Frankenstein”. O diretor acaba por transformar outros tantos pontos da história, que, por alguns momentos, sequer podemos reconhecer como sendo a mesma de Mary Shelley. A necessidade dos diretores contemporâneos de justificar realisticamente o fabuloso é extremamente cansativo, sendo um reducionismo que fere o intelecto daqueles que tem um mínimo de conhecimento sobre a obra. Não deixa de ser um retrato torpe do século XXI. Enquanto o XIX declara a “morte de Deus”, o XXI faz da ciência técnica seu “novo Deus”. No entanto, a ficção não precisa de realismo. É preciso fluir dentro do seu próprio meio ao contar-nos suas histórias. No fim, del Toro, assim como Victor, acabou prisioneiro de sua criatura. Em sua visão cientificista, tornou-se ele refém da obra que deu vida.

