Safo: fragmentos animados

Safo: fragmentos animados

Luiz Maurício Bentim

Assisti no cinema o filme “Safo” de Rosana Urbes. O fato de ser um curta não diminui em nada a animação desenvolvida pela diretora, mas só relaciona o modo como a obra de Safo chegou até nós. Safo viveu entre o final do séc. VII a.C. e início do séc. VI a.C. na pólis de Mitilene, a principal cidade da ilha de Lesbos situada na Grécia. Seus poemas fazem parte do que chamamos de “poesia lírica” e foram se perdendo ao longo da história, restando apenas alguns fragmentos encontrados em papiros nas areias do deserto do Egito na cidade de Oxirrinco no fim do séc. XIX[1]. A poesia lírica grega é uma designação comum para vários tipos diferentes de poesias e tem por característica a expressão dos sentimentos, ideias, esperanças e medos de seus poetas. Na obra de Safo, podemos perceber a mais profunda sensibilidade de seus poemas, que tratam, principalmente, de solidão e amor. Esses fragmentos poéticos que atravessaram milênios carregam uma força expressiva que transcende o tempo e continua a nos tocar de maneira visceral. A genialidade de Safo reside justamente nessa capacidade de cristalizar emoções em versos que, mesmo incompletos, pulsam com vida própria. O que a diretora consegue em sua animação é dar nova dimensão a essa potência, transformando os espaços em branco entre os fragmentos não em ausências, mas em possibilidades visuais que dialogam com o mistério da poesia de Safo. Os fragmentos de Safo já são em si pérolas raras que somados à obra de Rosana Urbes ganharam uma beleza a mais. O curta é uma animação inspirada na história de poetisa que mistura os fragmentos a cores e movimentos, dando um toque esplêndido à incompletude da obra de Safo. Tudo ganha cores pulsantes e movimento fluido, criando uma ponte sensorial entre nosso tempo e aquele mundo helênico onde uma mulher ousou cantar seus desejos e afetos com uma sinceridade que ainda hoje nos desarma.  Emociona pela composição, harmonia e beleza: vale cada minuto de exibição. Merece ser visto e revisto.

Ficha técnica

Direção, roteiro e direção de arte: Rosana Urbes

Direção de fotografia: Fernando Fernandes

Trilha sonora: Ultrassom Gustavo Kurlat e Ruben Feffer

Edição de som: Ultrassom

Montagem: Leticia Hayashi Samuel Mariani Renato José Duque

Elenco: Rosana Urbes


[1] SAFO. Fragmentos completos. Edição bilíngue. Tradução de Gulherme Gontijo Flores. São Paulo: Editora 34, 2020.